Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Áudios

Leitura para maiores de quarenta anos
Data: 24/03/2008
Créditos:
Texto: Bernard Gontier
Música: Small piece, de Bernard Gontier
Voz: Leila Marinho Lage
Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Leitura para Maiores de 40 anos
Foi um sonho, sabe?  E como tal, acariciando a consciência com imagens isentas de tempo ou espaço, tudo a principio um tanto nublado, mas a sensação é das melhores, começo a me perguntar onde estou.
Vejamos, que lugar é esse…
Principiemos pela arquitetura. (principiemos não é saboroso?) Ah, a língua portuguesa... É isto! Estamos num lugar onde se fala o português. E além deste fato vestir-se de um belo começo, já adianto a fronteira onde trafega minha percepção. Estamos no Brasil. Não obstante, trata-se de um Brasil Onírico. Prédios art deco. Outros prédios. As calçadas, aquele motivo ondulado, divisor entre o asfalto e a areia, que beija o mar. Sedes de engenho, de fazendas de café, palmeiras  imperiais, ruas de jabuticabeiras... Brasil dos pomares. Tem estrela no céu. Tem um fusca e um violão. Espere. Da arquitetura surgem os personagens. Maysa e Elis Regina conversam animadamente sobre o dragão do mar, que reapareceu. Num pequeno palco, à direita, entram dançando Pelé, Vavá e Didi. O palco permanece, iluminado levemente, ladeado por palmeiras imperiais. Torna à cena Pelé, desta vez com Garrincha e Zagalo. O palco finge que se move. Pelé, Tostão e Jairzinho acenam um tímido adeus. Anita, Carlos e Tarsila contam prosas e mais prosas à medida que o movimento embebeda os espaços todos.
O Corcovado não quer sair de cena. A moça da Fatos e Fotos mostra um retrato, em preto e branco, de Jobim, João Gilberto e Stan Getz. Muita gente aplaude Monteiro Lobato quando ele, de modo sucinto, sustenta que no país existem mais escritores do que  leitores. São crianças, são velhos e moços, os que aplaudem, boa parte deles com poucos dentes, presume-se que tenham todas as cores e um vasto sorriso, às vêzes olhos amendoados e cabelos lisos, e todos, salvo raras exceções, se dizem munidos do potencial da leitura. Um pequeno truque do destino, entretanto, lhes rouba esse prazer. E quando dizem isso ninguém aplaude. Difícil ovacionar aquilo que nos constrange. Do lado do Corcovado, agora, tem um cantinho e um violão. Tem João Guimarães Rosa e Érico Veríssimo jogando um silencioso xadrez. Vinícius de Morais, do alto de um monumento sem precedentes, diz que “a tudo ao meu amor serei atento”. E no outro cantinho uma moça de olhos tristes sibila com ar perdido “com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto..” O palco não se define nunca. O Corcovado espera apenas pelo Redentor. Milhões e milhões passeiam pelas calçadas de  motivo ondulado, de braços dados, uns com chapéu de palha, outras de lenço, na rádio alguém bem elegante canta assim “ minha voz, minha luz, minha vida e minha revelação...”.
As músicas e as pessoas se sobrepõem, como pratos empilhados, pessoas conhecidas cujo nome esqueci, músicas que não sei parte da letra ou então me escapam fatias da melodia. No palco uma enorme mangueira se sobrepõe em meio ao cafezal. E como não poderia deixar de ser, “pelo chão muitos caroços, como que restos dos nossos próprios sonhos devorados, pelo pássaro da aurora”. Tudo muito rápido. “Tudo ao mesmo tempo agora”. O palco se mexe um tantinho, ao passo que um rio caudaloso, conduzido por aves coloridas, pinta e borda no imaginário de todas as gentes. Personagens.
Que além disso assemelham-se a mestres. Que antes de mais nada são seres humanos. E que apesar de tudo são brasileiros. E só me resta colá-los neste visor, à maneira de quem coloca o retrato de um ente  querido ao lado da cama, que no final de contas é o gesto de quem procura um porto seguro, a calmaria depois da tempestade, a luz no fim do túnel.
Enviado por Bernard Gontier em 15/03/2008

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