Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Textos


MINHA AMIGA PINK

DAQUI UNS DOIS ANOS ESTAREI NA TERCEIRA IDADE...

Po! Nem aproveitei direito as idades anteriores! Eu quero saber quem vive até cem anos! Pra mim já estou na quarta idade, caramba! Tenho 58!

 
Mas algumas terminologias me salvam: poderei furar fila e ainda serei uma idosa jovem - se é que isto pode existir. Por enquanto eu sou apenas uma senhora – sem direitos, apenas deveres...

Ano passado fui operada da vesícula. Eu trabalhava em Maricá e ia de ônibus. Minha preocupação, duas semanas após a cirurgia, seria o esforço que era empregado ao subir as escadas dos transportes (são altos). Eu não queria fazer hérnia nos buracos eu me fizeram na barriga. Tive, então, uma ideia: bengala, rosa, bem chamativa...

Adiantou de alguma coisa? Porra nenhuma! Os ônibus saíam fora, desviando de mim! Escalava aqueles degraus com a bengala na mão e um dia quase a enfiei, sem querer, no testículo de um passageiro, que não se levantou pra ceder seu lugar. Bem feito...

Eu já tinha esquecido da bengala cor de rosa, que eu segurava, quando nas barcas Niterói - Rio um guarda me segurou pelo braço. Levei um susto! Logo pensei em assalto, mas não era nada disto. O segurança tentava me ajudar a transpassar a intercessão da barca para o cais.

Muito bonitinho da parte dele. Eu tive que forçar uma marcha cambaleante, só pra agradá-lo... Tentei fazer o mesmo quando consegui pegar o ônibus aqui no Rio, que me levaria para casa. Não prestou: as pessoas me atropelavam, como seu eu não fosse uma deficiente física...

Como é que podemos dizer ao povo que estamos limitados? Colocando um cartaz na cabeça? E será que isto seria o suficiente no meio da multidão em pleno rush?

Um dia eu estava num ônibus superlotado, com a tal bengala rosa (agora pendurada no meu braço). Uma moça me puxou pelas costas. Imediatamente pensei ser, desta vez, o assalto. Não era. Ela queria ceder seu banco no ônibus. Disse a ela que não precisava, mas ela insistiu. Ela tinha a mesma idade que eu – só que eu portava uma bengala rosa. Aceitei e agradeci. Ela ficou em pé, sendo roçada e se desviando de um velho babaca.

Gente, não somos gente quando estamos na coletividade! E se aparentamos menos idade, aí é que não nos respeitam! O centro da cidade, numa metrópole brasileira desenvolvida, não é feito para cidadãos comuns, mas para atletas!

Dependemos da consciência de poucas pessoas, raras, ocasionais. Somos, quando deficientes, mesmo que momentaneamente, mendigos, pagãos, bastardos, sem lenço ou documento, sem espaço, sem direitos adquiridos, sem respeito ou compaixão, sem amor, sem civilidade.

Minha bengala Pink está lá no armário. Um dia eu posso precisar dela de novo e ela pode passar a ser minha eterna parceira. Será que terei da sociedade futura o mesmo apoio da minha companheira tão exótica?

https://www.youtube.com/watch?v=GxCnnKtrsfk
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 12/11/2016
Alterado em 12/11/2016
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