Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Textos

Dura lex, sed lex....
Mas os meus cabelos, quanta diferença...



Sabem o que faço agora? Estou muito pau da vida teclando e me arrumando para ir a um almoço.

Aí, me perguntam: “Por que está zangada, princesa?...”. Respondo: Porque estou de bobs!”. Se estes ainda resolvessem, seria maravilhoso... Anteriormente eu estava no banheiro tentando enrolar meu cabelos neles. Estão tão duros e lisos que nem enrolam.

Um dia desses, dentro de um elevador, um representante de laboratório, olhando meu cabelo, disse : “Corte novo no cabelo, doutora?...”.

Supus que ele achou que este cabelo liso, cheio de pontas irregulares, é estilo de corte, assim, meio punk... mas não é! Eu não fiz corte novo nenhum nele. A única coisa que corto de vez em quando são as pontas, para tentar acabar com o estrago. Pra piorar, com a proximidade da menô, o cabelo cresce menos ou mais lentamente...

To p da vida! E lembrar que meu cabelo era lindo... Pois é, agora eu concluo que meu cabelo era lindo... Quanto tempo vai levar para que eu o tenha de novo? E, se depois desta entressafra, eles vierem como um campo de milho?

Pior é que ontem mesmo eu estava assistindo a um seriado de época na TV e vi Zezé Polessa com um monte de rolo gigante na cuca e pensei como eram ridículas as mulheres que adoravam estes rolos plásticos no cabelo, encaracolando e armando a juba... Agora sou eu aqui, mas com um propósito diferente: dar forma ao deformado.

Desisti de pagar caro em salões para os hidratar. Não se hidrata cabelo ou nenhuma parte do corpo de fora pra dentro. A melhor forma de se hidratar é bebendo água... O máximo que se faz é dar aspecto sedoso, com cosméticos.  O tecido, se queimado ou morto, logo logo voltará ao seu aspecto original. É como estas dondocas bacanas que se vestem elegantemente com roupas caras e jóias. Se são barangas, não tem jeito: ao tirar a indumentária, as pelancas as deixam igualzinhas ao povão... E olha que muita mulher do povão, sem qualquer cuidado, dá um banho nas socialites esticadas...

Até meus 25 anos eu tinha o cabelo encaracolado, como daquelas mulheres medievais. Era só lavar, secar com as mãos e eu saía feliz da vida. Na infância a coisa era um pouco mais desagradável, pois tenho sangue de neguinha, se bem que código genético não vem da corrente sanguínea, não é ele que define raça.

Quando menina eu assistia aos anúncios de xampu e ficava admirando aquelas mulheres que balançavam os cabelos pra lá e pra cá, em câmera lenta, cheios, enormes, lisos... Eu queria aquilo! Mas meu cabelo era pixaim na raiz, assim, tipo tóin, nhóim, nhóim – enroladinho que nem pelo pubiano na raiz e liso só nas pontas, um inferno...

Eu falava abertamente com minha mãe: “A senhora, que tem esse cabelo lindo, preto, grosso e liso, por que foi casar com um brasileiro misturado?! Olha só como eu saí!”.

Meu irmão tinha um cabelo liso que nem de índio (tadinho, enrolou depois de coroa); minha irmã veio com cabelo de deusa, e eu, a mestiça, saí com aquele capacete dos infernos.

Minha mãe sabia que eu estava em fase de sedimentar minha personalidade e tentava me ajudar. Quando eu ia para a escola ela esticava meu cabelo pra trás e fazia um rabo de cavalo. Não adiantava, pois, de repente - tóim! - saltava uma mola. Não adiantava brilhantina (meu pai usava aquilo); não adiantava Gumex ou aquele óleo inglês, que não lembro o nome, mas lembro do perfume até hoje (aliás, existe até hoje).

Eu não chegava a ponto de usar Henê, nem fazer a loucura de passar ferro de passar roupa nele, como minha prima fazia, apenas pra deixar seu cabelo mais liso, entretanto, eu usava mil coisas nas madeixas.

Sabem o que é trauma? Sou traumatizadinha. Minha mãe, aquela debochada, enquanto me torturava para prender meu cabelo até eu ficar com um sorriso eterno no rosto e olhos de japonesa, cantava: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”. Eu colecionava aquelas bolinhas coloridas presas num elástico para cabelo. Coloridas não! Eram verdes, pois o colégio era de militares (em plena ditadura) e eu só podia colocar enfeites verdes.

Veio a época do alisante Wellin - uma maravilha... Eu passei a ter cabelos maravilhosos. Na fase adulta, ainda jovem, não precisei de mais nada. Só que comecei a assassinar meus fâneros. Por falar nisso, cabelo tem uma proteína semelhante à da unha. Chama-se de fâneros as unhas e cabelos.

Quando o seriado das Panteras (aquele trio de mulheres policiais) passou a fazer sucesso, eu comecei a imitar os cabelos de Farrah Fawcet, todo enroladinho pra trás. Começou, assim, a coisa de fazer “escova”.

Depois passei a pintar o cabelo e comecei com a pior dos venenos – reflexo, que hoje chamamos de balaiage ou de luzes. Dá no mesmo, pois em todos se coloca amônia e sei lá mais o quê...

Já fui quase loura, já fui loura e morena, já fui neguinha... Perdi minha identidade. Passei minha vida matando meus cabelos até eu entrar numa de ficar com cabelo branco na raiz. Já viram, né? Ninguém fica com um grisalho uniforme para poder passar por luzes. Ficamos com tufos, verdadeiras ilhas cobertas de neve espalhadas na cabeça. Então, comecei apenas a pintar da cor original.

Tinta e mais tinha e o cabelo indo pro beleléu... E agora, com a idade, o cabelo começou a ficar fino, cheio demais, um arame. Decidi, assim, a fazer escova progressiva, ao invés de os tratar ladequadamente. Não bem escova progressiva, mas algo como isso, que chamam de escova francesa, além de escova de vários países...

Da primeira vez que fiz, eu me olhei no espelho e me achei parecida com a Radical Chic. Fiquei decepcionada. Não queria ter cabelos lisos demais, só ajeitar. A cabeleireira disse que aquilo ia melhorar em dois dias. Aconteceu mesmo, porém, tive que me esconder dos outros no final de semana.

Com os meses, como o cabelo ficou seco, fiz de novo, mas noutro salão. Tive uma alergia horrorosa e acabei no médico. Mais meses depois voltei ao salão da primeira vez e me sugeriram outro alisamento, desta vez para alisar o inalisável... E põe tinta pra esconder cabelos brancos...

E hoje eu acabei com o tal milharal do qual comentei acima. Agora decidi: ninguém coloca mais a mão na minha cabeça tão cedo! Não gasto mais minha grana com tratamentos em vão, nem ao menos um corte de cabelo! Eu mesma vou me cuidar e esperar o cabelo morto cair e o novo crescer. Haja prendedores enfeitados, tiaras, rolinhos e papelotes...

Vai demorar, uma vez que temos em média uns 150 mil fios, onde 90% do cabelo está em fase de crescimento e pode demorar de 2 a 6 anos para o fio ficar longo. 10% do cabelo está em fase de repouso e dura na nossa cabeça uns 2 a 3 meses, quando passam a cair. Em estado normal perdemos de 50 a 100 fios ao dia, mas ao cair um fio, outros já estão crescendo e não notamos. A vantagem é que o cabelo cresce uns 2 cmao mês. Talvez consiga me recuperar até o final do ano.

Muitos fatores promovem o crescimento e a queda do cabelo, mas aqui não é um artigo médico. Quis apenas deixar o meu protesto. Quando a gente coloca química, seja ela qual for, no cabelo, ainda mais tendo que esquentar com chapinha o mesmo, para fixar a química, estamos acelerando a morte dele.

Os esteticistas, cosmetólogos e farmacêuticos podem me contestar, mas eu digo: “Comigo, jamais. No máximo uma tinta básica pra esconder a idade”. 

Agora vou lá no tal almoço... Terei que tirar fotos. Essa coisa de aparecer na Net é vida de artista mesmo... Vou esquecer dos cabelos e aproveitar o dia - o sorriso de felicidade compensará, decerto.

Leila Marinho Lage
http://www.clubedadonameno.com]

Vejam o comercial...
http://www.youtube.com/watch?v=A2ALKyLK82A
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 22/06/2008
Alterado em 23/06/2008
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