Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Textos



“POR QUEM OS SINOS DOBRAM”
Texto de Yvan Nhoé

Gosto muito dessa época do ano quando acontecem as festas juninas e julinas. É quando também começa a acontecer aquele friozinho gostoso que convida a gente pra se meter debaixo das cobertas com quem a gente ama, o nosso gostoso “cobertor de orelha”. E todos vocês já sabem que esse meu cobertor gostoso é a Menô, minha namorada de longa data.
 
De uns tempos para cá Menô e eu resolvemos sair um pouco mais de casa, passear por esta Cidade Maravilhosa em busca de diversão e conhecimentos culturais (essa de conhecimentos culturais é idéia dela, que anda muito metida ultimamente).

Nosso mais recente passeio foi justamente numa festa junina, que foi realizada na casa de uma amiga, em um ambiente propício para uma festa desse estilo, com direito a fogueira, guloseimas, balões, fogos e até a famosa quadrilha.

O convite dizia que o traje deveria ser “a caráter”. Menô fez umas tranças do tipo Maria Chiquinha, colocou um vestido xadrez com alguma coisa parecida com suspensórios, e fez uma maquiagem caprichada, tornando-se uma verdadeira “caipira”. Ela até que ficou engraçadinha.

Aí chegou a vez de me produzir. Detalhe: ela é quem fez questão de me colocar no jeito. Então teve início um trabalho estafante. Imaginem Menô dizendo pra mim “bota isso”, “tira aquilo”, “assim não combina”, “ta feio”, “to quase desistindo”... Terminado o trabalho, eu estava me sentindo ridículo, com uma calça jeans amarrotada, camisa xadrez, suspensórios, chapéu de palha meio esbagaçado, e umas pinturinhas no rosto que ela fez questão de fazer (até um bigode fininho ela fez). Olhei-me no espelho e levei um susto. Minha primeira tentação foi sair correndo, pois me assustei com o que vi ali refletido. Era como se o espelho estivesse se vingando de mim por tantos gestos e caretas que já fiz pra ele. Passado o susto inicial, aceitei a situação em nome do amor (o que esse tal de amor não faz com a gente!!!).

Em um determinado momento Menô se vira para mim e fala de sopetão:

“Eu quero casar”.

“Mas, Menô, na quadrilha já tem uma noiva”, eu respondi.

Aí, veio: “Não, seu idiota. Eu queria casar com você de verdade, na igreja e tudo. Depois de todos esses anos juntos acho que chegou a hora de a gente se unir de verdade”.

Silêncio... suspiros... silêncio...

Até que eu consegui dizer: “É algo a se pensar para o futuro”.

“Mas que futuro?! Você não sabe quantos anos eu tenho, Josualdo? E você aí, que ta dobrando o cabo da boa esperança e tratando as artroses, fica esperando por futuro?!”, perguntou ela.

Não queria dar corda pra Menô, pois sempre que eu ouso peitar qualquer situação, ela ganha no grito, no gogó. Ela até estava com a razão: não só dobro o cabo da boa esperança, como outros cabos também... Mas não queria deixar barato e continuei: “Eu aqui me desdobrando pra te fazer feliz e você reclamando por causa de um pequeno detalhe!”.

Ela arregalou aqueles olhões e me desarmou ao dizer: “Você podia me fazer feliz em dobro...”.

Neste momento ouvi dobrar um sino. A quadrilha estava se preparando para se apresentar. Menô, zangada com minha falta de tato, decidiu se unir ao grupo.
Mulher bonita e sozinha em roda de dança logo logo encontra parceiro, e foi aí que começou meu tormento. Chegou um boiadeiro, desses com cinturão de fivela grande e chapéu de aba larga, e puxou minha mulher para atravessar um túnel humano. E quando eu vi aquele grandalhão pegar na cintura dela, senti um par de chifres pesar na minha testa. Fechei os olhos e me vi perfeitamente como um touro domado na arena com aquele sujeito em cima de mim enlaçando minha galhada...

Podia ter algum receio de casar, mas ficar sem minha Menô eu não fico. Entrei naquela dança sem saber dançar; dei um chega pra lá no chapeludo e falei pra ela: “Peço sua mão para uma contradança”.

Ela não teve tempo de reagir e dançamos, rodamos, sorrimos. Na hora de ir embora ela me cochichou baixinho no ouvido: “Gostei do seu jeito. Por hoje passa, mas da próxima vez eu quero te dar a minha mão, mas no altar da igreja da Penha”.

Aí, eu me pergunto: quantos degraus terei que galgar até chegar a essa decisão?...
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 30/06/2008
Alterado em 21/02/2009
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