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UPA 24 horas

Geralmente quando eu falo sobre serviços públicos de atendimento médico minhas críticas não são boas. Não gosto de falar sobre política, mas tudo na nossa vida gira em torno de nossos governantes. São eles os responsáveis diretos por muita coisa que acontece no nosso dia: a fila do banco, o carnê atrasado, o nome sujo no SPC, a geladeira vazia, o desemprego, a depressão, a solidão, a falta de perspectivas e sonhos, a doença...

Infelizmente nem sempre temos candidatos que correspondam às nossas expectativas, e o voto passa a ser utilizado como um instrumento de exclusão: vota-se no “menos ruim”...  Acontece que é a única arma que o povo tem. Até porque não se governa sozinho – uma equipe consegue governar, e não, um indivíduo. A população tem o dever de manter vigilância constante em seus representantes, tendo o direito de denunciar ou protestar contra as irregularidades e injustiças cometidas.

O povo brasileiro, numa visão geral, é pacífico demais, é alienado, acomodado e medroso. Vemos absurdos acontecendo à nossa volta e fazemos de conta que aquilo não faz parte de nossa realidade. Em sociedade as injustiças cometidas ao cidadão não são realidades paralelas - fazem parte de um conjunto e nós somos peças do mesmo.

Quando algo de bom é feito através do governo, seja em que instância for, geralmente a população não reconhece, achando apenas que não fizeram mais nada do que a obrigação deles. Concordo plenamente.

Mas, apenas a título de informação, vou fazer uma comparação de dois casos médicos e a qualidade no atendimento:

Minha secretária acabou de chegar de um UPA (Unidade de Pronto Atendimento , regida pelo governo do estado do Rio de Janeiro). Projeto que funciona desde maio de 2007. São unidades que foram montadas para desafogar o movimento desnecessário nos postos de saúde e nos hospitais. São preparados para pequenas e médias emergências e têm suporte para transferência dos casos graves, que exijam cuidados especiais ou mesmo internação (http://www.saude.rj.gov.br/UPA24H/home.shtml).

O marido de minha secretária teve um problema na sua carroceria e ficou com o diferencial corrido, ou seja, uma crise de dor na coluna, lombociatalgia para ser mais técnica.

Ela me contou que, a princípio, foram a um hospital, mas não havia ortopedista. Eu não sei como falta ortopedista em emergências. É imprescindível haver esta especialidade em todos os hospitais e postos de saúde. O quadro que o paciente apresentava poderia ser resolvido por um clínico, mas, tudo bem, lá foram eles para um UPA num bairro próximo.

- “Dejê, por que você não trouxe seu marido em minha casa? Eu daria uma injeção nele e num instantinho ele ficaria bom! Não havia necessidade de padecer nesses hospitais”.

- “Quem disse que padecemos?! Não demorou nem 5 minutos e ele foi muito bem atendido. Tanto os médicos quanto as enfermeiras foram muito atenciosos. O lugar é limpo, bem organizado, nem parece Brasil, coisa de primeiro mundo...”.

Pois é... As coisas estão mudando... Semana retrasada uma paciente minha teve uma trombose na perna quatro dias após uma cesareana. Ela procurou um hospital muito bacana, que tem credenciamento com seu plano de saúde. Esperou 10 horas (sentada, com a perna para baixo e amamentando) numa emergência.

Eu estava viajando e falei com o médico de plantão ao telefone, o qual queria mandar a paciente embora com prescrição de um remedinho qualquer.

O diagnóstico foi feito porque eu a orientei a procurar um amigo para ele fazer um Doppler dos vasos da perna. No dia anterior a paciente já tinha procurado o mesmo serviço. Quem a atendeu garantiu (baseada em um exame de sangue, que eu quero saber qual foi, pois faltei esta aula na faculdade) que ela não tinha nada nas pernas.

Qualquer recém-formado sabe que a trombose venosa é muito frequente após cirurgias, ainda mais em puérperas. O risco é de uma embolia, podendo levar à morte. É necessário avaliar a necessidade de anticoagulação, o que é realizado geralmente internando-se esses casos.

O colega disse que consultou o parecer de uma angiologista... Perguntei a ele por telefone se essa angiologista se responsabilizaria pelo caso e se era boa mesmo... Achei muito estranho dizerem para mim que o quadro era banal. Mais estranho ainda foi quando o colega disse que a paciente apenas deveria usar meia de alta compressão e tudo bem. Não se usam essas meias quando há trombose, não na fase aguda.

Eu estava muito incomodada com aquela conduta e comecei a ficar agoniada por estar longe e ser um fim de semana.

Graças ao bom Pai, aquele médico deve ter ficado com o pé atrás com o que eu disse e, após nosso diálogo, resolveu pedir ajuda a outro especialista, que imediatamente a internou e iniciou esquema de heparina.

A paciente precisou ficar internada junto com seu bebê por uma semana. Após a alta está sendo acompanhada clinicamente e deverá passar as próximas semanas controlando a dose do anticoagulante.

Salve, governo do Rio! Tenho certeza que esta paciente não ia padecer, mofando numa cadeira e correndo o risco de morte com condutas absurdas, caso tivesse procurado um UPA.

Espero continuar elogiando este serviço público e que este projeto venha a favorecer toda a população.

Leila Marinho Lage
http://www.clubedadonameno.com


Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 21/09/2008
Alterado em 21/09/2008
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