Clube da Menô

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Textos

NATAL COM CABELOS LINDOS

Eu podia fazer mil e uma para enviar formatações e textos mirabolantes para meus leitores e amigos. Eu não atualizo meu querido site há muitos meses, embora eu nunca tenha parado de escrever ou produzir.

Chego a um ponto que cansei. Talvez nem seja cansaço, mas maturidade, observação do mundo que gira à minha volta, que me faz sentar e ficar estática, que me faz apenas pensar - e ORAR.

O que é uma oração? Oração é coisa de alguma religião específica? Não! Orar é chamar pelas forças misteriosas e se conectar com elas. Inclusive orações podem ser para coisas benéficas ou maléficas. Antes de alguém pretender ser religioso, de qualquer vertente, deve conhecer a língua portuguesa e esquecer das palavras, em qualquer língua. Orações, a meu ver, servem para o caminho que conhecemos como Deus, mas nunca serão elas, tantas vezes mal interpretadas, o caminho Dele.

Não digo que nunca seguirei alguma filosofia religiosa, mas até o momento, se eu TIVER que SEGUIR alguma coisa, não será na base da força. Por outro lado, ao longo de todos os dias da minha vida, estou em contato com coisas superiores, além de mim, que me fazem ver que não existe só o material, mas, sim, uma enorme energia espiritual que envolve tudo o que fazemos, tudo o que pensamos, tudo o que idealizamos, tudo que está atrás, no meio e adiante. Não vemos, mas podemos sentir.

A gente o tempo todo conversa com esta força. Os pais e os filhos conhecem muito bem este diálogo, mesmo conturbado. Os amigos e parentes compartilham. Homens e mulheres lutam para se ligarem a uma coisa que não faz parte de dupla, que é muito solitária, dos primórdios da nossa existência consciente.

O silêncio, a observação, a introspecção poderá dizer mais a você do que qualquer um falando alto nas praças ou altares. Ornamentação, ostentação, simbolismos, cerimoniais, nada disto tem o menor valor se você não quiser se conectar com o mistério poderoso que vai te alimentar a alma, que vai te fazer feliz, que vai te fazer enfrentar com calma e coragem as etapas da vida.

Ninguém neste mundo tem o nosso poder, que é o da nossa mente. Se alguém entra nela e faz benesses, é porque deixamos acontecer. Algumas pessoas, entretanto, seja de que religião ou profissão for, têm a capacidade de influenciar e até ajudar o semelhante. Isto tudo, porém, é muito perigoso, pois até o mentor, o ser que condiciona, está à mercê de críticas e condenações.

A comunicação divina mais sincera que existe neste mundo não tem nome, não tem rótulo, não se alimenta de ilusões. Ela é firme e eterna. Para mim só existe entre um homem e Deus, diretamente. Os outros são obreiros, esperançosos de um degrau a mais nas suas convicções. Quem faz a ligação sempre será o outro e deve assim se acostumar a ser - o outro. O outro apenas se abaixou pra dar suas costas pra alguém galgar um andar, nada mais.

Esta energia materializa-se subitamente ao nosso lado de vez em quando, através de pessoas, até mesmo desconhecidas, mas que começam a conversar conosco e passam mensagens, como aconteceu comigo ontem:

Eu não gosto de marido, mas sem secador de cabelo eu não sobrevivo! O meu deu defeito e eu parei horas de meu trabalho para comprar um merreca (pois secador pode ser merreca, diferentemente de marido). E numa fila do caixa, um moço, com cara de doido, falou pra mim:

- “Que dia quente, né? Que demora, né?”.

Respondi:

- “Graças a Deus!” - mas pensando na praia do fim de semana.

- “A senhora falou em Deus...”.

- “E daí? Conhece o sujeito?”.

- “Sim...”.

Adivinhando que aquele moço era meio pirado e ia tentar me converter, numa fila de loja de departamento, fui logo encurtando a coisa:

- “Olha só: eu não sou evangélica, não sou católica, budista, espírita nem nada. Sou um pouco de tudo e agradeço a Deus apenas pelo sol que ele vai me dar no domingo. Por isto suporto todas as coisas. É só”.

Obviamente aquele rapaz era um anjo desentortado, ou seja: passou por muitas e começou a se encantar com Deus, ao ponto de falar Nele até na rua, com qualquer um, como se todos os outros fossem bezerros perdidos. Como ele falava de coisas boas, e eu estava com tempo (o tempo da fila), dei trela. Aí, ele tirou algo do bolso...

A princípio fiquei apreensiva, pois aquilo podia ser assalto à loja, mas não era. Ele mostrou a carteira de trabalho, vale transporte, vale refeição, vale uma imensidão de coisas. Ele me contou que um ano e meio atrás estava na sarjeta, cheirando todas, barganhando comida e depois vendendo o que davam pra ele por mais drogas.

Ele me orientou a nunca dar uma quentinha limpa e enfeitadinha para um mendigo, pois ele iria vender. Ele falou que jamais comprasse fraldas ou leite para ninguém, muito menos produtos embalados, com lacre.

- “Teu pedinte vai vender! Misture tudo na quentinha, tire os produtos da embalagem! Eu cansei de armar com este jogo, até nos supermercados, com a maior cara de pau! Comprei muita droga através da piedade das pessoas”.

Achei que estávamos familiarizados ao ponto de eu perguntar:

- “Você mudou porque entrou numa Igreja e te mostraram o caminho pra Deus, é? Como foi a coisa?”.

- “Encurtando a minha história, evangélicos me abraçaram, sim, e me ajudaram a sair das drogas até agora. To limpo há mais de um ano!”.

- “Excelente! Entendo a força divina, mas alguém apostou em você na prática. Quem foi?”.

- “O gerente da lanchonete, aquela famosa... Ele me contratou. Por isto tenho tantos cartões”.

- “Então honre o que conseguiu. Já casou?”.

- “To querendo!”.

- “Case, faça família, compre uma casa e crie filhos. Conseguirá!”.

- “A senhora também pode conseguir o que quer - já que eu consegui...”.

- “Agradeço a força, meu anjo”.

Saí daquela fila enorme, doida pra voltar ao meu trabalho, mas ainda ouvia atrás de mim a voz do moço:

- “Feliz Natal!”.

Leila Marinho Lage
Dezembro de 2014
http://www.clubedadonameno.com
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 23/12/2014
Alterado em 23/12/2014
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