Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Textos


Pererecóloga

Um médico, como outros profissionais, não conseguem (e não podem) bater ponto no final de uma tarde e ignorar sua tarefa até a manhã seguinte. Não é assim que a banda toca...

O dia tem 24 horas. São 8 horas pra dormirmos, mais 8 pra trabalharmos e as outras 8 horas seriam de folga. Cadê as últimas?! Estão dispersas neste vasto e absurdo mundo, o meu mundo.

Aqui passo, simbolicamente, um "causo" do meu cotidiano.

PERERECÓLOGA

Eu estava na serra da Mantiqueira, a 1300 meros de altitude, dividida entre Rio de Janeiro e Minas por uma ponte, chegando de um belo e divertido encontro, quando eu me deparei com esta perereca da foto.

Disseram-me depois que se tratava de um sapo, mas pra mim era uma perereca enorme e folgada, querendo entrar no meu quarto, justamente no fim de semana que eu escolhi pra descansar minha cabeça. Aí vai o diálogo com ela:

- Quê?! Você aqui!

- Pois é... Eu estava te esperando pra entrar e dormir contigo.

- Jamais! Eu calço 36 - no máximo 37 no tênis. Pererecas pra mim, só no trabalho! Estou de férias.

- Preciso de abrigo e te escolhi...

- Vou te cutucar ate encontrar o mato de novo. Sai fora!

- Eu to carente. Preciso de você!

- Tenho aqui uma série de hospitais de emergência com plantonistas. Se não conseguir atendimento ou vagas pra internação, ligue para seu convênio e exija seus direitos. Aqui onde estamos não posso te dar mosquitos, muito menos alguma chance de ser atendida com qualidade. Portanto, estou na selva que nem você!

- Você é médica e cuida bem de pererecas! Nas emergências do Rio nada farão por mim. Tem obrigação de cuidar de minha saúde!

- Hoje sou turista. Até deixei meu carimbo em casa. Os planos de saúde não pagam por sacrifícios ou dificuldades. Tudo é tabelado por baixo.bE tampouco pagam por uma equipe médica que tenho que convocar.

Médicos se negam a receber menos que o almoço da semana - pois é isto que ganhariam. Portanto, se eu deixar você entrar, estarei assumindo seu caso, tal como uma mãe ou administradora do caos.

Posso até ser benevolente contigo e te dar algum abrigo, mas hoje em dia, não depende de mim sua saúde, mas, sim, de uma estrutura completamente precária, e que colocou o ginecologista e obstetra como o vilão da história.

Mesmo que hoje eu estivesse no Rio, não teria como te internar, perereca. Não há vagas disponíveis, com certeza absoluta!

- Você me assumiu! Você cuida de mim! Tem que resolver essas coisas!

- Entendi seu lado, mas você não entende o que fazem com quem paga, de alguma forma, seus planos de saúde e o que recebe a rede credenciada. Eu tenho que ser assistente social, coordenadora do absurdo, madre Tereza de Calcutá, ou ser bem objetiva pra você e com seu convênio.

Portanto, eu me nego, a partir de agora, aceitar emergências, tais como dar à luz seus filhotes ou tratar de qualquer coisa em hospitais as pererecas do meu brejo. Se eu não tenho como te tratar com dignidade em intercorrências, não posso cuidar de você. A remuneração - inclusive para a minha equipe - é absurdamente ofensiva.

- E, aí? E eu? O que faço agora? Eu já fui ao postinho de saúde da esquina e me deram um Bucopan na veia; fizeram um EAS, um hemograma e uma tomografia da minha pança. O cara de lá, plantonista, com cara de Zé Mané, me mandou procurar um gineco-obstetra, "com urgência, no primeiro dia útil", dizendo que quando não se acha nada nas tais imagens e nos exames laboratoriais de “rotina”, deve ser problema pererecal... Resolvi, então, pegar um ônibus e te encontrar neste sabadão de sol.

- Pode entrar. Por hoje passa... Vá pro banheiro, que é fresquinho. Amanhã eu encontro um canto pra você se cuidar nesta terra de Malboro. E a partir de agora to fora desta sacanagem toda!


 
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 14/01/2015
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