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O CORAÇÃO DE MÃE

Uma vez a minha mãe, poucos anos antes de morrer em situação gravíssima, numa eutanásia passiva, justamente pelo seu coração, escreveu uma carta que eu só encontrei após sua morte.
A carta fora escrita muito antes de eu imaginar como seria seu fim, mas ela sabia como ia morrer, como também sabia que eu ia encontrar sua carta, que me perdoava com antecedência de aceitar que ela devia dormir numa decisão de equipe médica.
A carta eu não vou aqui publicar, pois é muito pessoal, mas saibam que esta senhora sabia com antecedência como iria morrer. Ela tinha dois cânceres, mas ela sabia que seu coração ia parar de funcionar, e ela ia decidir quando.
Ela escreveu a letra de uma canção portuguesa nesta carta, a qual envio em anexo. Um canção portuguesa como ela. Podem acreditar ou não, ouvi esta música na minha cabeça o tempo todo, antes de os médicos desligarem os motores.
Em algum momento, após sua morte, eu escrevi este texto, que representa aquilo que ela escreveu. Acho que por influência de seu aniversário, que é no dia 22 de março, ou porque o meu próprio coração deu uma falhada básica um dia desses, republico:
"Meu coração está fraco, não consigo amar mais ...do que já amo.
Ele cresceu, tentando dar espaço para tantas pessoas que nele quiseram habitar. E bate lento, talvez cadenciando o meu ritmo, quando tudo passa devagar, sem a pressa pelo futuro, que só traz a certeza do fim. Uma eternidade de batimentos, lentos, descompassados, como o descompasso das minhas convicções.
Exigem dele o que ele não pode mais dar, e o meu sorriso mascara o seu solitário lamento.
Bate, bate, bate mais um pouco! Segue até onde puder bater na mesma tecla. Ejeta vida para além de minhas expectativas...
Ele cansou, se esgarçou, mas ainda está aqui em mim, o único que me mantém, o único que pulsa além do meu pensamento. Incógnito, ele se apoia, envolvido pelo escudo que construí ao seu redor. Ele bate e se rebate, não me dá folga; me lembra que estou aqui; me alerta que não estarei um dia.
Meu coração está fraco, ele não me acompanha e eu não o ouço mais. Dos dias revoltos ele se alimentou, e das amarguras ele se compensou. Ele ainda continua batendo, batendo enquanto eu não o ordenar parar".

https://www.youtube.com/watch?v=BAUzNDV1w28

Leila Marinho Lage
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 20/03/2015
Alterado em 20/03/2015
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