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ULTRASSONOGRAFIA
Temores, dúvidas e comportamento social


Lembro que quando me formei não havia ultrassonografia com tanta facilidade, até porque tudo estava engatinhando. Não existia essa de pedir ultra de rotina. Pra um ginecologista conseguir este exame, tínhamos que batalhar bastante. Pra piorar, a técnica era precária, dando muito mais margem a erros do que hoje acontece.

O que é ultrassonografia

Nenhum especialista neste exame vê diretamente o corpo humano. Ele apenas traduz em imagens o que um som reverberado produziu. Como algumas imagens são muito características, o médico pode dar o diagnóstico, mas em muitas outras situações o laudo é inespecífico, apenas SUGERINDO coisas, dando PROBABILIDADES. Compete ao médico assistente esclarecer o quadro de cada paciente. É assim que funciona.

Hoje em dia, principalmente em ginecologia, se pede ultra pra qualquer coisa, inclusive como rotina, assim como se pede mamografia de rotina para mulheres a partir de 40 anos. Mesmo que a mulher esteja assintomática, diante de tanta facilidade e acessibilidade para o exame, a coisa se tornou noventa por cento o movimento de uma clínica ultrassonográfica.

Os ultrassonografistas (atolados em produzirem a meta do dia), muitas vezes não verificam o histórico do paciente ou o encaminhamento do solicitante. Por outras vezes, o médico solicitante não faz a indicação precisa da razão do exame – se é rotina ou se existe uma suspeita a ser avaliada por imagem.

Com isto tudo, é um oba-oba geral. Pra piorar tudo, encontramos, nós ginecologistas e obstetras, situações muito desagradáveis:

- Médicos não especialistas ou enfermeiras completamente incompetentes pedindo exames sem saberem o que fazer com os resultados e que nem souberam examinar ou fazer a anamnese da paciente.

- O médico de ultrassom que nada entende de nada, mas dá palpites, dizendo o que devia ser feito, adiantando-se à conduta de quem assiste a paciente.

- O médico de ultrassom que, para livrar o dele da reta, assusta com laudos (não sugerindo, mas afirmando) tipo: processo inflamatório pélvico; tumor indefinido, necessitando de ressonância magnética etc etc etc...

- A paciente que apavorada com laudos, vai pra Internet se diagnosticar e já chega a nós muito “bem informadas”, querendo discutir conosco de igual pra igual. Uma batalha pra convencer essas pessoas leigas que precisam confiar no nosso taco e calarem a boca.

- Por outro lado, algumas até deixam de levar seus exames, ignorando o retorno da consulta, pois já verificaram que os exames estão normais.

- Em obstetrícia o negócio complica mais ainda, pois é um tal de verem piolho em cabeça de careca ou de deixarem de ver os “piolhos” (por falta de experiência), que interfere diretamente em nossas condutas seguintes. E frequentemente termos que repetir os exames em outros lugares.

Assim é que pessoas morrem, sem terem que morrer.
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 17/07/2016
Alterado em 17/07/2016


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