Clube da Menô

A minha vida só é possível incrementada!

Textos

Dona Menô se mudou?
Ela mudou...
 
Depois daquelas reuniões misteriosas ela começou a mudar. A tal idade chegava e ela decidiu substituir o ruim pelo bom, o yin pelo yang, o down pelo up, o tô fora pelo tô dentro (e vice-versa).

E pensar que essa mudança começou dentro dela, procurando o caminho das pedras, tentando se salvar... Ela rejuvenesceu uns dez anos (e isso, em sua idade, é muito). Era só ver o brilho em seu olhar, que se perdera com o tempo. A velhice agora era amadurecimento, plenitude, um momento na vida.

O primeiro a perceber foi o Seu Joaquim do botequim: “Ai, Jesus! A freguesa sumiu!”.
 
Havia uns trinta dias que ela não comprava seus cigarrinhos. Só que o patrício descobriu que ela estava fazendo ponto no pagode do bar ao lado, tomando suco de tomate acompanhada de umas coroas: “Não é que a gaja está bonitona?!”.

Os vizinhos passaram a ver uma figura estranha toda manhã, com roupa de ginástica, óculos escuros, mostrando todos os seus dentes, ao lado de um gatão musculoso: “Olha lá! É Dona Menô e seu personal trainer!".

O filho estava desesperado. Quando ele ligava, uma gravação dizia que ela estava ocupadíssima, blá-blá-blá... Ele até suspeitou de sequestro, mas um dia ela ligou da praia, numa aula de Tai-Chi-Suan: “Não, querido, a ligação tá picotando porque eu estou fazendo a posição da garça...”.

O filho se assustou: “Será que mamãe está transando?! Como será esta modalidade?".

O gerente do horti-fruti estava adorando aquela cliente meio vó-meio-hippie, que acabava com o estoque de frutas, legumes, verduras, raízes e grãos.

O psiquiatra achou estranho quando ela ligou desmarcando a consulta e dizia estar dando um tempo para suas neuroses: “Doctor, posso estar pirada, mas me sinto muito bem”.

Ele, de certa forma, concordava com a piração...

O dono do laboratório, que já era íntimo, achou que a pobre tinha morrido. Afinal, seu último exame de sangue parecia uma enciclopédia de Medicina Interna. Daí, começaram a aparecer de vez em quando uns preventivos e ele deduziu que, pelo menos, genitalmente falando, ela estava com tudo em cima (ou embaixo).

O fisioterapeuta, quando percebeu que ela não aparecia mais, enviou uma carta lembrando dos benefícios do forno de Bier, das maravilhas das ondas curtas etc, etc, etc...

Ela gentilmente enviou um convite para ele participar de um concurso de lambada, que estava organizando. Todos da clínica foram. O fisioterapeuta foi sumariamente desclassificado.

E a farmácia?! Onde estavam aquelas rentosas receitas de colagogos, antibióticos, antidepressivos, soníferos, antiácidos, antitudo? Bem, aquela senhora tinha mudado seu perfil. Na lista só apareciam cosméticos, camisinhas e uma grandeza de coisas afins.

Por falar nisso, seu companheiro, o Josualdo, anda sem saber o que fazer. Não sabe se procura um médico para ele ou um exorcista para ela. Pior é aquele personal trainer, de quem ele tem o maior ciúme. Para salvar sua reputação, ele espalha por aí que o grandão é gay. Se não pode impedir que ela ande todo dia pra lá e pra cá com o bem-dotado, ao menos, ele camufla o chifre: “Será que ele põe a mão na cintura dela? Será que ela está com aquela malha apertada na bunda?”.
 
Tadinha da Dona Menô. Não está nem aí para o professor e adora aquele careca barrigudo que está se sentindo inseguro. Se bem que estar ao lado de um gatão faz bem pra qualquer ego!

Dona Menô já achou os atalhos pra driblar a natureza. Até resolveu trabalhar como voluntária, ajudando os mais idosos em um asilo. O problema é que ela vem revolucionando demais a turma: “Como é, macacada? Vamos levantar o astral. Vocês têm a eternidade para ficar pra baixo. Vamos aproveitar enquanto a indesejada das gentes não chega!”.
 
Vale dizer que “a indesejada das gentes” é como Manuel Bandeira denomina a morte, no poema “Consoada”. Menô é assim o tempo todo. Adora citar Quintana, Vinícius, Neruda, Drummond e quem mais lhe vier na cabeça, quando quer ilustrar suas maluquices.

Todo mundo agora quer saber que grupinho é esse que faz um bem danado para os amigos, dá o maior sossego para a família, uma alegria enorme para seu seguro de saúde e obriga Josualdo a reciclar essa relação.
 
Venha também ser um integrante do Clube da Dona Menô!
 
Leila Marinho Lage
http://www. clubedadonameno .com
  
Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 08/12/2007
Alterado em 27/01/2010
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